sábado, 27 de março de 2010

Brinquedos auxiliam desenvolvimento cognitivo de crianças com deficiência visual

Fabricados com texturas e formas diferentes, brinquedos estimulam outros sentidos das crianças e podem ser construídos em casa

Comentário SACI: Publicado em 28 de junho de 2004.

Daniele Próspero

Na Laramara - Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, localizada na zona oeste de São Paulo, o ato de brincar se torna um momento ainda mais divertido para as crianças atendidas pela ONG. Brinquedos com texturas, formas e cores diferentes construídos e adaptados especialmente para portadores de deficiência visual, estimulam também os outros quatro sentidos: tato, audição, paladar e o olfato.

Segundo a pedagoga Mara de Campos Siaulys, presidente da organização, o brincar, a interação e a participação da criança são fundamentais a criança. "O desenvolvimento cognitivo se inicia desde o nascimento pela interação com o ambiente. Como 80% de tudo o que aprendemos é pelos olhos, uma criança que não enxerga fica prejudicada. Você precisa substituir essa falta, compensar com todos os outros sentidos para que ela participe do ambiente". Ela ressalta a importância de integrar todos os sentidos para um aprendizado completo sobre o objeto.

A pedagoga começou a desenvolver os brinquedos a partir de sua experiência no atendimento a crianças com deficiência visual. Ela conta que, durante o trabalho, percebia a dificuldade da criança cega assimilar situações abstratas, sem um objeto concreto e tátil para compreender o que aquilo significava, como números, por exemplo. Diversas vezes, Mara teve de adaptar diversos brinquedos para que a criança pudesse sentir também pelo tato e a audição.

O primeiro brinquedo desenvolvido foi um de introdução ao braile, onde as crianças precisavam encaixar as letras dos seis pontos do braile e formar palavras. A pedagoga afirma que, até então, o único material que existia com este aspecto era uma cartilha chamada Caminho Suave, que trazia ilustrações em braile.

"Eu achava isso o cúmulo. É super importante para a criança cega conhecer um brinquedo que represente aquele fato, não somente pelo braile. Senão, ela pode até ouvir falar, mas não saberá o que é até ser apresentada a eles. E os brinquedos têm a função de dar essa oportunidade para que ela conheça os objetos". Hoje, são mais de 100 brinquedos fabricados no Centro de Produção de Brinquedos e Materiais Pedagógicos da Laramara. Eles são feitos em diversas formas, tamanhos, cores e materiais, como plástico, madeira, tecido, lixa, entre outros.

Cada brinquedo tem uma função distinta e facilita o aprendizado. A proposta é propiciar o desenvolvimento integral da criança. A Colméia Alfabética, por exemplo, ajuda a criança a conhecer o alfabeto. Para cada letra, que é escrita em braile e em letra comum, a Colméia traz diversos objetos que iniciam com esta letra. Desta forma, a criança irá reconhecer os brinquedos pelo tato, pelo nome e qual sua função. Já o Caixinha de Números, ajuda a criança na aquisição do conceito de número e quantidade.

Mara explica que a criança que não enxerga também tem muita dificuldade em entender a questão de tempo, como as horas do dia, a divisão entre manhã, tarde e noite, pois ela não vê as mudanças que ocorrem ao longo do dia. Brinquedos como o Passatempo vem facilitar este aprendizado e desenvolver a noção do tempo. O brinquedo é um grande painel composto por cartões que se encaixam pequenos bolsos. A proposta é que, ao lado dos meses do ano, a criança coloque um cartão com um acontecimento que faz referência ao mês. Janeiro, por exemplo, é o mês das férias de verão e fevereiro é o mês do Carnaval. No mesmo brinquedo, ao lado dos dias da semana, a criança pode relacionar com as atividades que realiza diariamente.

O Doce Sabor incentiva as crianças a desenvolverem atividades que melhoram a coordenação motora. O mais interessante é que todas as partes do brinquedo são comestíveis. A criança tem que encaixar a bolacha num tubinho, que está colocado numa barra de gelatina. Ela pode ainda fazer colar e pulseira de balinha ou brincar com a massinha de modelagem colorida e, no final, comê-la, já que é feita de farinha. Tem até uma receita de tinta de gelatina e uma caixinha com balas que faz barulho para acompanhar uma música.

Para os bebês, foram desenvolvidos diversos brinquedos. O Rodão, por exemplo, feito com pneu de caminhão e coberto com uma malha de tricô, é um espaço aconchegante onde a criança é colocada ficando com as mãos livres para brincar com os objetos presos ao seu redor. "São objetos interessantes, como chocalho, pandeiro. Esta é uma oportunidade para ela brincar, interagir, sentir objetos que tenham som e melhorar a coordenação motora. Além de brincar, ela está se desenvolvendo", comenta a pedagoga, que ressalta a importância também dos outros brinquedos vendidos em lojas comuns. "As crianças cegas podem usar normalmente os demais brinquedos, mas têm que ter um sentido para elas. É importante que aproveitem aquele objeto porque, alguns brinquedos, elas irão pegar, sentir e não fará sentido nenhum".

Luiz Henrique Soares Silva, de seis anos, aprendeu a conhecer melhor as formas e as cores brincando com um jogo chamado "Formas e Números". Hoje, ele se diverte ao completar rapidamente o jogo reunindo corretamente os quadrados, as estrelas e as bolas das mesmas cores utilizando o tato. "Ele é muito esperto e adora brincar. Com estes brinquedos, ele monta e inventa várias coisas, ajudando no seu desenvolvimento. O uso do tato facilita muito o aprendizado", comenta a mãe, Sheila Oliveira Soares.

Os brinquedos desenvolvidos por Mara e sua equipe, na sua maioria, são fáceis de fazer e podem ser produzidos até mesmo em casa. O "Chocalho Gruda-Gruda", por exemplo, é feito com latas de molho de tomate, revestidos de materiais com cores e texturas diferentes, que trazem, dentro da lata, objetos com sons distintos. O brinquedo ajuda a desenvolver a coordenação ouvido-mão, além de fortalecer a mão, favorecer a identificação e reconhecimento dos sons, entre outros benefícios. Os pais podem aprender a produzir estes produtos em livros e vídeos desenvolvidos pela Laramara. Atualmente, os brinquedos, além de serem vendidos na Brincanto, loja da organização, são encomendas por escolas, prefeituras e entidades que trabalham com deficientes visuais de São Paulo e do Brasil.

Espaços para brincar

Além da produção de brinquedos e de um acervo desse material, composto por 1.500 brinquedos, o Projeto Brincanto desenvolve outras atividades que favorecem a brincadeira como instrumento de desenvolvimento integral das crianças. O projeto engloba ainda ações como a AMA (Atividades Motoras Adaptadas) e o Brin-Ar Feliz, em que crianças de creches da cidade são convidadas a brincarem em todos os espaços da organização. As professoras também são envolvidas nas atividades e participam de palestras que mostram a importância do mundo da brincadeira.

Os pais participam de perto de todo esse processo e são envolvidos nas atividades para favorecer o aprendizado das crianças. No Centro de Convivência da Família, os participantes aprendem a construir brinquedos e a brincar. As mães, que participam de cursos e atividades, já desenvolveram mais de 70 livros em braile. Elas criam histórias e ilustram os livros com elementos concretos, com brinquedos. Assim, a criança, além de ler, pode conhecer também os elementos que estão sendo narrados. Um livro sobre as Olimpíadas da Austrália, por exemplo, traz em relevo a quadra de tênis e os lutadores de judô. Tudo é sensorial. Todos os brinquedos e livros podem ser levados para casa, em empréstimo.

Maria do Socorro Alencar Simplício participa há quase 10 anos das atividades da ONG, produzindo brinquedos e acompanhando as duas filhas portadoras de deficiência visual. Ela diz que, atualmente, o grupo de mães está trabalhando em um novo projeto para ajudar os pais novos da entidade a conhecerem os direitos das crianças e também se envolveram mais nas ações da ONG. "Temos que incentivar essa participação porque tudo é para o bem dos nossos filhos", aponta.

Segundo a presidente da Laramara, atualmente, a organização trabalha com uma linha pedagógica que favorece essa interação entre as crianças e suas famílias, priorizando a socialização. "Há oito anos, o nosso trabalho era quase que terapêutico. Antes, trabalhávamos na deficiência das crianças. Hoje, na eficiência que elas têm", explica a pedagoga.


Laramara
Endereço: rua Conselheiro Brotero, nº 338, São Paulo - SP
Telefone: (11) 3660-6400
Site: http://www.laramara.org.br/
E-mail: laramara@laramara.org.br


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